Por Miguel Lucena
Tem gente que vive com o salto pronto, o pé já na beira do abismo — não para cair, mas para alçar voo. Já viu? Pessoas com talento, sensibilidade, coragem até, mas que tropeçam sempre quando a chance de mudar de vida chega mais perto do que nunca.
É como se uma voz interna, herdada de um tempo em que eram diminuídas, gritasse: “Você não merece isso.” E aí, no momento em que tudo parecia se alinhar — o emprego dos sonhos, o amor recíproco, a oportunidade suada — vem o surto. Sabotam tudo. Brigam com quem estendeu a mão, somem das redes, perdem o prazo, inventam um caos.
Não é porque são ingratas ou fracas. É que carregar anos de humilhação e baixa autoestima forma uma armadura que pesa, mas dá uma sensação estranha de abrigo. Sair dela é se expor ao risco da queda, mesmo quando tudo indica que é hora de voar.
A infância diz muito. Tem gente que só ouviu “não vai dar em nada”, “você é um erro”, “ninguém vai te amar assim”. Cresce com essas vozes ecoando dentro, sabotando cada tentativa de felicidade. Na dúvida entre o desconhecido bom e o conhecido ruim, escolhem o que dói menos: o velho sofrimento já familiar.
Mas o que essas pessoas não sabem — ou sabem e esquecem — é que merecem, sim. Mereço. Você também. E que voar dói um pouco no começo, porque as asas estavam atrofiadas. Mas depois… depois vem o vento no rosto, e a vista é linda.
Se você se reconheceu aqui, saiba: não desista no último passo. Silencie as vozes do passado. Respire fundo, confie. O salto assusta, eu sei. Mas ficar estagnado, no fundo, dói mais.
E você nasceu pra voar.