Quando a desilusão mata um poeta

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Por Miguel Lucena

Dizem que o poeta pernambucano Dudu Morais morreu de paixão.
Não dessas paixões que passam como chuva rala, mas daquelas que se instalam no peito como estação inteira, sem data pra ir embora. Morreu porque o amor, quando se desfaz em silêncio, às vezes pesa mais do que o mundo.
O poeta já nasce absolvido. Vem ao mundo com o dom perigoso de sentir demais, de ler a humanidade com olhos de anjo cansado. Por isso, quando a ingratidão sopra — esse ar rarefeito que rouba o fôlego — alguns escolhem partir cedo, como quem fecha a porta para não ouvir mais o ranger das decepções.
Dudu escreveu o que viveu.
E viveu o que escreveu.
“Quando a última esperança tombar morta,
você pode dizer que me esqueceu”,
confessou, como quem antecipa o próprio eco.
Sabia que certos amores prescrevem, mas as feridas não.
Que há despedidas em que um sai com o que chegou
e o outro fica com tudo o que deixou para trás.
Seu coração percorreu estradas demais,
conheceu mistérios, colecionou silêncios,
e guardou segredos que só quem sente sabe nomear.
Pagou mais do que devia
por uma história breve demais para tanto sofrimento.
Dudu não pediu razão; pediu porquê.
Fez contas sinceras e descobriu que a matemática do afeto
quase sempre é injusta com quem ama mais.
Ficou sentado no banco do réu,
sem direito a defesa,
condenado a viver entre o céu e o inferno da lembrança.
O aventureiro virou mendigo de um “oi” na madrugada,
aprendeu que onde a esperança morre
um sonho é sepultado sem flores.
E que há choros tão fundos
que só o próprio peito escuta.
Ainda assim, deixou lição —
porque poeta, mesmo quando cai, ensina:
as decepções servem para mapear abismos,
para não voltar a passar perto
do lugar exato onde a alma sangrou.
Dudu morreu de paixão, dizem.
Mas a poesia ficou —
e quem fica, ao ler, respira por ele
e aprende que amar, às vezes,
é sobreviver ao que nos faltou.

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