Obrigada, Milton Santos!

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Foto: Divulgação
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Por Maria José Rocha Lima – Zezé

O centenário de nascimento de Milton Santos nos convoca a mais que uma homenagem: impõe uma revisão de consciência sobre o país, a educação e o papel do intelectual público. Baiano de Brotas de Macaúbas, Milton Santos nasceu em 3 de agosto de 1926 e faleceu em 24 de junho de 2001, deixando uma obra monumental, reconhecida no Brasil e no mundo, marcada pela coragem crítica, pela defesa da ética e pela centralidade do ser humano frente às perversidades do mercado global.

Em 18 de novembro de 1998, durante a Sessão Solene “Obrigado, professor; Obrigada, professora!”, realizada na Assembleia Legislativa da Bahia, tive a honra de propor o encontro que o trouxe à tribuna. Naquela tarde, Milton Santos falou como sempre viveu: como professor. Não como cargo, mas como vocação de liberdade. Recordou a infância, os mestres exigentes, o rigor sem complacência e a escola que lhe ensinou, ao mesmo tempo, verdade e ética — valores que jamais abandonaria.

Um dos pontos centrais de sua fala foi a liberdade do professor. Lamentou que o magistério, antes exercido com autonomia intelectual, tenha sido reduzido à condição de funcionalismo tolhido, enfraquecendo a capacidade crítica do ensino. Alertou que, sem liberdade, o professor torna-se menos hábil para formar cidadãos e menos capaz de exercer plenamente sua missão.

Milton Santos denunciou ainda o saber sem significado que passou a dominar as salas de aula: um conhecimento pragmático, moldado pelas exigências de um mundo globalizado que ele qualificava como perverso e totalitário, no qual a democracia vira rótulo e a ética é sacrificada. Para ele, educar não é apenas ensinar conteúdos, mas formar o “homem inteiro”, capaz de unir corpo e espírito sob o compromisso com a verdade.
Com a lucidez que o caracterizava, afirmou que o problema do Brasil não é apenas oferecer educação para todos, mas garantir educação de qualidade para todos. Sem isso, a escola converte-se na própria matriz da desigualdade social. E advertiu: homenagens retóricas não bastam. É dever histórico do Poder Público — Executivo e Legislativo — assumir responsabilidades concretas para que professores não trabalhem sob o medo do amanhã, mas com dignidade e condições psicológicas para ensinar.

Ao evocar a Bahia, Milton Santos foi contundente e amoroso. Disse que a grandeza do Estado reside em seus pobres, guardiões da cultura diante das leis excludentes da globalização. Lembrou que a cultura não se preserva nas elites submissas ao dinheiro, mas no povo que resiste. E afirmou, com emoção, que os professores baianos são grandes porque brotam dessas camadas populares e, por isso mesmo, preservam a alma da Bahia.

Naquele discurso, reafirmou sua identidade de intelectual público: alguém que não busca aplausos, pois sabe que o aplauso, muitas vezes, é o veneno do pensamento livre. Intelectual, para ele, é quem nada contra a corrente, mantém a humildade e tem coragem de dizer a verdade.
Ao recordar Milton Santos neste centenário, renovo não apenas a gratidão, mas o compromisso. Seu pensamento permanece atual, necessário e incômodo — como deve ser toda obra que se recusa a aceitar a injustiça como destino. Obrigada, professor. O Brasil que sonhamos ainda precisa, urgentemente, da sua lição de liberdade, ética e dignidade.

 

Maria José Rocha Lima é mestre em Educação e doutora em Psicanálise. Fundadora da Casa da Educação Anísio Teixeira. Deputada estadual no período de 1991 a 1999.

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