Igreja Batista Filadélfia do Guará-DF: de falsidade ideológica a abuso sexual

Compartilhar:
Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Telegram
[views count="1" print= "0"]
[tta_listen_btn listen_text="Ouvir" pause_text="Pause" resume_text="Retomar" replay_text="Ouvir" start_text="Iniciar" stop_text="Parar"]

Igreja Batista Filadélfia do Guará-DF: de falsidade ideológica a abuso sexual, como a dinastia de pai e filho desmoronou o império religioso

 

A Igreja Batista Filadélfia do Guará (DF) volta ao noticiário policial. Dez anos após denúncias de falsidade ideológica contra o pastor-presidente, Marcos Campos, o filho dele, Gabriel Campos, está preso temporariamente por 30 dias, suspeito de abuso sexual de menores. Fiéis e ex-membros relatam crise de confiança e pedem reforma na liderança.

Histórico e acusações

No Apocalipse, Filadélfia é uma das sete igrejas da Ásia Menor a quem o apóstolo João enviou cartas. Diferentemente das demais, não recebeu reprovações, sendo descrita como fiel e obediente.

A liderança da Igreja Batista Filadélfia do Guará (DF), que adotou o nome bíblico, vive outra realidade. Há dez anos, a congregação enfrentou denúncias de falsidade ideológica atribuídas ao pastor-presidente. Agora, volta às páginas policiais: o filho dele, Gabriel, está preso temporariamente pelo prazo de 30 dias, suspeito de abuso sexual de menores.

Na narrativa bíblica, Deus pede a Abraão o sacrifício de Isaque e, no momento decisivo, ordena que pare, para provar a fé do patriarca. No episódio de Marcos e Gabriel, o pai fez o contrário: tentou proteger o filho, que está preso e é investigado por abuso sexual de menores. A Polícia Civil atribuiu a Gabriel o perfil de “serial estuprador”, expressão usada pelo delegado do caso. Só que, antes da atual denúncia, houve outra que passou despercebida pela maioria dos fiéis.

Em 2015, ao constarem que existiam atas de assembleias que nunca ocorreram, um grupo de pastores resolveu investigar e questionar o pastor-presidente. Ao notar a reação contrária e ríspida de Marcos, os pastores auxiliares resolveram buscar a Justiça após sofrerem ameaças e represálias. Segundo eles, as fraudes vieram à tona em 2015. Diante da ausência de providências da diretoria, eles apresentaram notícia-crime ao Ministério Público.

Após cobranças por prestação de contas, o pastor-presidente afirmou ser alvo de ataques e promoveu assembleia sem convocação e sem direito de defesa, em desacordo com o estatuto, conforme narram integrantes da igreja. A Justiça anulou essa assembleia no processo 2015.14.1.008608-9, ao “DECLARAR a nulidade da ata da assembleia geral extraordinária nº 657, bem como a deliberação de exclusão do requerente dos quadros de membros da Igreja ré”.

O que diz a denúncia

Para o Ministério Público, no período de 3 de janeiro de 2011 a 5 de janeiro de 2015, “o denunciado (…) fez inserir em documento particular, no caso em cinco atas de assembleias ordinárias da Igreja Batista Filadélfia, declaração falsa, com o fim de alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante, notadamente para burlar a eleição da Diretoria”. O órgão sustenta a incidência do artigo 299 do Código Penal (falsidade ideológica) e requereu o recebimento da denúncia e a citação do acusado “até a condenação final”.

A magistrada de primeiro grau acolheu a peça acusatória: “Recebo a denúncia (…), eis que presentes os requisitos à sua admissibilidade previstos no art. 41 do CPP e não vislumbrada qualquer das hipóteses do art. 395”. E registrou: “Não há elementos para concluir acerca de causa excludente de ilicitude ou culpabilidade; o fato narrado constitui, em tese, delito previsto na legislação penal”.

Decisão do Tribunal

Ao analisar o habeas corpus, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios manteve o processo. A ementa resume: “Habeas corpus. Crime de falsidade ideológica. Paciente denunciado por fazer inserir em atas de assembleias de instituição religiosa declaração falsa. Pretensão de trancar a ação penal. Prova satisfatória da materialidade do crime e indícios suficientes de autoria. Ordem denegada”.

No voto, o relator, desembargador George Lopes, citou documentos e depoimentos do inquérito: “As atas das assembleias ordinárias homologaram eleições de 2011 até 2015. (…) Depoimentos apontam para a não realização das assembleias, mas as atas foram registradas em cartório. O próprio réu confessou não ter tido tempo hábil para realizar as assembleias anuais”. E prosseguiu: “Há notícia de que somente se convocou uma assembleia extraordinária para encobrir as falsidades depois que fiéis tomaram conhecimento da corrupta administração. Também há informações de que membros foram excluídos da Igreja por confrontarem a administração do réu, que também é alvo de investigações acerca de desvio ilícito de recursos patrimoniais. Há, portanto, prova da materialidade e indícios suficientes de autoria”.

Pontos a esclarecer

Ficam em aberto, à luz dos autos e de relatos constantes nas peças:
• A diretoria foi formalmente cientificada das decisões e dos andamentos processuais?
• A igreja foi comunicada das medidas adotadas no Judiciário?
• Por que há pedido de sigilo em processo conexo no qual, segundo os autos, discute-se a possibilidade de Acordo de Não Persecução Penal (ANPP)?

Depoimentos e reações

Lupa Política ouviu membros e ex-membros da denominação. Para evitar exposição e possíveis retaliações, eles falaram sob reserva de identidade. Um fiel que frequenta a igreja há anos defendeu uma reforma ampla e a escolha de um presidente externo ao grupo dirigente. “Cogitar um nome que seja cria do Marcos é manter a mesma gestão e a mesma filosofia. Para renascer das cinzas, a Filadélfia precisa voltar às origens e reformar todo o método dos últimos 25 anos. É uma reforma local dentro da Reforma. O que é bom se mantém; o que é ruim, e há muita coisa, se descarta”, afirmou.

No escândalo de 2015, uma parte dos fiéis deixou a igreja. Uma membro conhecida decidiu permanecer, apesar das dúvidas. Hoje, com a investigação de abuso sexual, ela afirma ter se equivocado: “Um filho geralmente segue os exemplos do pai. Se o Marcos vem fazendo coisas erradas, o Gabriel pode ter visto isso e aprendido. Não que o Marcos tenha ensinado o filho a abusar de menores, o que não acredito. Mas pode ter visto coisas ilícitas desde cedo e seguido esse caminho e, como abusador, escolher justamente os mais inocentes, aqueles a quem Jesus disse que seria melhor amarrar uma corda no pescoço e lançar ao mar do que fazer mal”.

“O pastor Djair Guerra caiu por muito menos, em 1997. Na época, foi necessária uma mudança profunda. Trouxeram o pastor Sirlene Araújo, delegado de polícia, para presidir a Filadélfia. Com o tempo, ele implementou mudanças na organização da igreja, o que incomodou o grupo de Djair que permaneceu, incluindo Marcos, então pastor de jovens. Em pouco tempo, Marcos articulou um complô para prejudicar Sirlene e chegou a ameaçá-lo no altar. Com a saída de Sirlene, que buscava uma gestão pastoral pautada pela ética, a luz no fim do túnel, ao que tudo indica, era um trem em alta velocidade chamado família Campos. É hora de a Filadélfia cortar o mal pela raiz, destituindo a presidência e toda a direção. Se não fizer isso, é melhor fechar as portas”, finalizou.

Para um ex-membro que acompanhou de perto o escândalo de falsidade ideológica, há culto à figura pastoral na Filadélfia. “Só devemos adorar ao Senhor. O que existe na igreja é um culto ao pastor, como se ele fosse um ser acima dos demais. Com isso, cria-se uma ‘imunidade espiritual’ antibíblica, como se ele não pudesse ser exortado. Daí acontecem esse tipo de coisa, em que ele e sua família têm ‘superpoderes’ e devem ser apenas reverenciados”, afirmou.

Para ele, o salário pastoral, considerado muito alto, é um dos principais vícios pastorais da Filadélfia. “O salário do Marcos é altíssimo. Não tenho o valor exato, mas sei que é elevado. Se ele vier a falecer, a esposa, pastora Elda Campos, recebe a aposentadoria integral. Não faz sentido um pastor ganhar isso tudo. A quantia gera apego ao cargo e desestimula a rotatividade. Daí nascem dinastias nas igrejas e, com elas, abusos”, concluiu.

Um ex-líder que deixou a igreja após a perseguição aos pastores que denunciaram fraude nas atas falou ao portal sobre o escândalo de dez anos atrás. Segundo ele, houve manipulação para que os fiéis não soubessem a verdade. “Os pastores alertaram, mas não foram ouvidos. Tentaram falar em assembleia, mas não permitiram. Foi uma barbárie em nome de Deus. Foram escorraçados injustamente por Marcos e sua tropa de choque, com base no discurso de que estavam se levantando contra o pastor-presidente. Mas o MP deu razão aos pastores e denunciou Campos. Pelo que sei, ele teve de pagar cestas básicas e reconhecer que fraudou as atas para permanecer na presidência. O problema é que ele conseguiu o sigilo dos autos para esconder isso dos fiéis, além de alterar o estatuto e aumentar ainda mais seus poderes. Se tivessem ouvido os pastores no passado, talvez não estivessem passando por isso hoje”, disse.

Na visão desse ex-membro, que viveu de perto as situações anteriores, a Filadélfia deveria ter órgãos colegiados fortes, com poderes estatutários bem definidos e pessoas firmes em sua composição. “Há um conselho, mas sem poderes. Sua atuação é muito limitada e passa primeiro pelo crivo do pastor-presidente. As pessoas têm receio de contrariá-lo e serem expostas ou banidas. Se ele fez isso com sete pastores de uma vez, o que fará com um simples membro? Essa cultura fica. Desde aquela época, as pessoas têm medo. Os órgãos colegiados deveriam ser capazes de orientar e fiscalizar o pastor-presidente com diretrizes preestabelecidas para dirigir a igreja nas áreas administrativa, financeira, pastoral e patrimonial. Acredito que só assim se corrige erros desse tipo”, completou.

O outro lado

Sobre o escândalo atual, a Igreja Batista Filadélfia divulgou nota para “restabelecer a verdade e se posicionar” após a prisão do investigado. O texto afirma que o suspeito era “ex-membro voluntário do Ministério de Adolescentes” e “não exercia função de liderança desde o início de 2025”. A instituição nega “omissão” ou “acobertamento” e diz que sempre orientou as famílias a “registrar ocorrência policial”. Ressalta que “acolhimento espiritual não substitui a Justiça do Estado” e esclarece que o investigado “não é, nem nunca foi, pastor” da denominação.

Segundo a direção, o parentesco do investigado com o pastor-presidente “não interferiu nas medidas disciplinares” nem na “colaboração com as autoridades”. A igreja alega que o “sigilo do inquérito” e a proteção às vítimas limitam a divulgação de detalhes, mas reafirma “disposição para cooperar integralmente com as investigações”.

Da Redação

Mais lidas

Congresso se ausenta de atos pelos três an...
Regras do INSS em 2026 endurecem aposentad...
Bom dia com alegria
...