Por Miguel Lucena
Cadeia, no Brasil, continua sendo um equipamento público destinado quase exclusivamente aos pobres. É como se estivesse escrito na porta, em letras invisíveis: “Propriedade da miséria. Entrada proibida a quem tem patrimônio.” Os exemplos se repetem com a previsibilidade de um relógio: mal o rico é alcançado por uma ordem judicial, já está de volta ao conforto de casa, pulando etapas que para o povo são muralhas intransponíveis.
Daniel Vorcaro, por exemplo, do alto de seus bilhões, nem esquentou a cela. A porta mal havia se fechado e já se abria de novo, como se a lei tivesse zíper para quem pode pagar advogados estrelados, fianças generosas e recursos infindáveis. Enquanto isso, 90% dos presos no Brasil são pobres – a maioria, traficantes de meia tigela, gente que o sistema colhe como erva daninha nas periferias.
O abismo não está apenas na cor da pele ou no CEP, mas na conta bancária. O rico responde em liberdade; o pobre fica preso no processo antes de ser condenado. Para um, a presunção de inocência; para o outro, a presunção de culpa. É a velha coreografia da desigualdade, dançada com a naturalidade de quem já decorou os passos.
E no final, quando a cortina baixar, só vai sobrar para figuras como Beto Louco, o bode expiatório conveniente, aquele que não tem dinheiro, nem padrinho, nem manchete amiga. Rico não fica preso — ao menos, não por muito tempo. A cadeia, essa instituição tão anunciada como símbolo de justiça, continua funcionando como sempre funcionou: para enquadrar os de baixo e aliviar os de cima.
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