Por Miguel Lucena
No sertão, a resistência não grita: ela permanece. O bode e a cabra sabem disso. Subindo o lajedo como quem sobe um altar de pedra, escolhem o pouco com rigor de sábios. Não bebem qualquer água, não comem qualquer resto. Há dignidade na sobrevivência. A seca lhes ensina a parcimônia, e o sol, a altivez. Entre espinhos e clarões, aprendem a viver sem se ajoelhar.
O sertanejo observa e aprende. Há nele o mesmo pacto silencioso com a terra dura. O vaqueiro atravessa a caatinga como quem enfrenta o próprio destino: rasga o espinho, suporta o pó, sustenta o passo. Não desafia a natureza por bravata, mas por necessidade — e por amor ao chão que o criou. Cada calo é um mapa, cada cicatriz é uma história contada sem palavras.
E há as mulheres. Sempre elas. Caminham firmes, a cabeça erguida, levando em terrinas de barro o sustento dos dias. Equilibram comida e esperança, como quem equilibra o mundo. São elas que alimentam os heróis anônimos da agricultura, as mãos que plantam e colhem sob o céu avaro. No barro que carregam, vai também a memória do povo.
Bode, cabra e gente se reconhecem. A pedra os prova, a seca os mede, e nenhum recua. O sertão não é apenas lugar: é lição. Ensina que resistir é escolher com cuidado, caminhar com coragem e viver com honra, mesmo quando tudo parece faltar.
É assim que o sertão segue — de pé.
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