O brasileiro, por não conhecer seu presente, vive a repetir os erros do passado, que já foi presente; afinal – e para fazer justiça a Machado de Assis, – o presente que se ignora vale o futuro. E esse futuro é cantado e decantado de forma ufanista, como se fosse um totem a iluminar um novo ciclo de vida. Apenas esse retorno é visto como desenrolar do tempo – para quem a história registra os feitos e acontecimentos humanos.
Esse futuro que se repete no presente, do qual se ignora as elites e o povo, nos vem mostrar o quanto repetimos a falta de planejamento das instituições públicas. Tomemos, agora, o caso premente da educação. Ano após ano, assistimos a um desfiladeiro de amadorismo, desorganização, repetição de problemas (que seriam resolvidos pelas bravatas anteriores) e ausência de responsabilidades; e mais – ninguém responde pelos seus atos.
Vejamos a seguir. Ausência de construção de escolas – por falta de prioridade à Educação Pública. Não adianta os governos, seja qual esfera, apresentar suas alegações. É só usar um pouco de espírito pública e verificar os dados do Censo Escolar e do IBGE(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), que saberemos quantas crianças entrarão na Rede Pública de Ensino, nos próximos anos; e portanto, quantas escolas precisam ser construídas – e o montante de recursos humanos e financeiros, destinados. Isso não se trata como promessa de campanha eleitoral, mas como metas de políticas públicas – dentre as quais, educação e saúde constituem a locomotiva central. O resto, “conversa mole para boi dormir” – já diziam os mestres da sabedoria popular.
Mas a realidade – e sua inexorável discípula, a dialética –, a exemplo da Coruja de Minerva, não dorme em lençóis macios para não entrar em letargia ad eternum –, a exemplo das elites brasileiras, as quais se dizem preocupadas com “meu povo”. Conveniente lembrar. Há dois tipos de preocupação: uma “assumida” em palanques de campanha eleitoreira, aos sabores do momento; e a outra, de quem, antecipadamente, faz planejamento e propõe soluções viáveis. Isso se chama compromisso e espírito públicos; e mais, respeito para com os cidadãos brasileiros, já cansados das eternas postergações daqueles que usam a coisa pública em função de “umbigos” nada republicanos.
Entra ano, sai ano – repetimos! – e o desfilar de carências se apresentam. Faltam vagas – por que não construíram salas de aulas; e alugam-se prédios e espaços inadequados, como se estudantes fossem coisas. Mas hipocritamente – desculpem-nos -, alardeiam que “crianças e adolescente são o futuro do Brasil”. Hei futuro que nos perseguem; queria que fosse o presente! Falta transporte, para áreas mais recônditas do nosso Brasil profundo. Faltam monitores de disciplina – para acompanhar os estudantes nos intervalos, assim como os PCDs em sala. Faltam equipes de suporte às direções escolares – muitas vezes, só com diretor e vice já sobrecarregados pela burocracia estafante.
O quadro nos alerta ainda, para carência de concursos na área do Magistério Público; e vejam – faltam mais de 200 mil professores da Educação Básica, atualmente, podendo este percentual chegar a mais de 250 mil, em 2040 – além de um plano nacional de formação continuada para docência, inter alia.
Poderia ainda, apresentar um caleidoscópio do que falta, ad eternum, à Educação Pública do nosso Brasil real – além de salas de aulas. O estado deve fazer, com urgência, um grande debate público – não é audiência, nem consulta – com a participação de mães, pais, estudantes e professores das Escolas Públicas, e assumir um compromisso planejado de, em certo tempo, zerar – podemos chamar assim? – a defasagem educacional brasileira; seja na construção de escolas, seja na qualidade do ensino ora apresentado. E tudo isso acompanhado e fiscalizado por conselhos comunitários, legalmente constituídos – sem interferências politiqueiras de vereadores, deputados e senadores.
E de tantas faltas elencadas, há uma mais grave, visível a “olho nu”. Falta as vossas excelências – administradoras de nossos suados impostos – um pouco de respeito com a cidadã e o cidadão brasileiros – fontes originárias desses recursos; e que deveriam ser os verdadeiros destinatários de um serviço público eficiente. E essa falta é grave, gravíssima, até o dia em que o povo acordar da sonolência mental.
Em tempo. Educação, saúde e transportes só irão melhorar, quando as “ditas excelências” forem obrigadas a fazer uso dos serviços públicos!
E à guisa de conclusão, “excelências”, a advertência machadiana – o presente que se ignora vale o futuro!.
*José Gadêlha Loureiro, professor de História e Secretário Geral da ADEEP-DF (Associação de Diretores e Ex-diretores das Escolas Públicas da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal). – Siga-nos – Instagran: @prof.gadelhadf