Por Carlos Arouck
Nos últimos meses, tornou-se evidente um processo de degradação moral em setores do antibolsonarismo. Grupos que antes se apresentavam como defensores do Estado de Direito passaram a normalizar prisões injustas, a celebrar perseguições a idosos e a aplaudir práticas típicas de um estado de exceção autoritário, impulsionado menos por justiça do que por vingança política.
Para esses setores, o bolsonarismo deixou de ser um adversário político a ser combatido no campo das ideias, das eleições e da persuasão democrática. Sua própria existência passou a ser tratada como uma afronta pessoal e existencial, capaz de justificar arbitrariedades que, em qualquer outro contexto, seriam consideradas inaceitáveis.
Embora o enfrentamento político seja legítimo, chama atenção o abandono progressivo de princípios democráticos elementares. Divergências passaram a ser tratadas como casos de polícia, enquanto a perseguição judicial, a fragilidade probatória e a relativização de garantias fundamentais passaram a ser vistas como meios aceitáveis para alcançar um fim considerado moralmente superior.
Casos emblemáticos ilustram esse cenário. Pessoas são presas por fatos que não ocorreram ou condenadas com base em documentos antigos, disponíveis publicamente há anos, atribuídos a reuniões das quais não participaram. Ainda assim, tais episódios são celebrados por aqueles que se autodenominam “civilizados” e “democráticos”.
Aplaude-se também a atuação de agentes do Estado que produzem relatos informais, frágeis e politicamente convenientes, elevados à condição de prova moral suficiente para sustentar acusações graves. Tudo isso se apoia na construção de um suposto “regime autoritário” que, na prática, jamais se materializou.
Independentemente da avaliação política sobre o governo Bolsonaro, não houve a implantação sistemática de medidas de restrição às liberdades fundamentais. Mesmo que tenham existido formulações teóricas autoritárias, elas nunca se converteram em prática institucional e, em democracias, ideias não constituem crime.
A narrativa do suposto golpe também se sustenta de forma precária. A hipótese de uma ruptura institucional conduzida por alguém já fora do poder, sem controle sobre forças armadas ou órgãos de segurança, a partir do exterior, e executada por civis desarmados, carece de plausibilidade histórica e lógica.
Os eventos de 8 de janeiro de 2023 ainda exigem explicações consistentes. Permanecem sem resposta questões centrais sobre falhas de segurança, omissões institucionais, retirada de forças de contenção e ausência de reação imediata dos órgãos responsáveis pela proteção do Estado. Trata-se de um episódio sem armas, sem manifesto, sem liderança clara e sem comando militar — características incompatíveis com definições históricas rigorosas de golpe de Estado. Ainda assim, serviu de base para condenações severas, sustentadas mais por convicções políticas do que por provas objetivas.
O resultado é uma justiça que se aproxima perigosamente do arbítrio, traço típico de regimes autoritários, não de repúblicas democráticas. As condenações passam a funcionar como instrumentos de vingança política contra figuras que desafiaram o establishment e mantêm relevância eleitoral.
Nesse ambiente, torna-se socialmente aceitável a instrumentalização do sofrimento humano. A saúde, a dignidade e até a própria vida de adversários políticos passam a ser tratadas como moeda de pressão. A crueldade é relativizada quando dirigida ao “inimigo correto”.
Esse processo não se limita ao plano abstrato; ele se manifesta em episódios concretos. Paralelamente a outras investigações, o ex-presidente Jair Bolsonaro encontra-se detido em uma unidade da Polícia Federal e sofreu recentemente um incidente de saúde. Segundo relato público, teria caído da cama na cela, apresentando desorientação, hematoma no rosto e sangramento nos pés.
Um laudo médico da própria Polícia Federal classificou o episódio como traumatismo craniano leve, sem indicação imediata de gravidade. Ainda assim, a defesa solicitou autorização judicial para a realização de exames complementares em um hospital de Brasília, alegando a necessidade de avaliação mais detalhada. Também foi informado que Bolsonaro permanece detido em um espaço extremamente reduzido, descrito como um cubículo, sem condições adequadas para alguém em seu estado de saúde. A reação de setores da opinião pública — marcada por ironia, comemoração ou relativização do ocorrido — ilustra com clareza a corrosão moral aqui descrita.
Discursos passados são utilizados para justificar abusos presentes, como se palavras pudessem legitimar perseguições, condenações sem provas e supressão de direitos. Confunde-se deliberadamente opinião com crime, retórica com prática, crítica com culpa.
A história, inevitavelmente, julgará este período. E o fará com a mesma vergonha sentida por sociedades que, no passado, toleraram ou aplaudiram regimes autoritários, normalizando o arbítrio em nome de paixões políticas, ressentimento e vingança.
O combate ao bolsonarismo, ou a qualquer movimento político,deve ocorrer no campo das ideias, da política, do voto e da mobilização democrática. Fora disso, não se constrói uma alternativa legítima, mas uma ditadura travestida de virtude.
Que este período se encerre o quanto antes, para que o país possa virar, com lucidez e responsabilidade, mais uma página sombria de sua história.
“Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não se tornar também um monstro. Quando se olha por muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”
Friedrich Nietzsche
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