Por José Gadêlha Loureiro*
A sociedade brasileira evoluiu a um estágio que requer uma maior compreensão de sua dinâmica. Muito tem se falado sobre o grau crescente da violência praticado por adolescentes; entretanto, ninguém coloca a questão nos seus diversos termos. E para compreender o problema, se faz necessário uma postura radical – ou seja, localizar a raiz e suas ramificações no tecido social.
Hoje vivemos no mundo marcado pela exaltação do hedonismo; o que vale é aparência e dinheiro! A vida perdeu o sentido; está esvaziada do ser. O que importa a mim, nem sempre importa ao outro. A régua social é a da aparência – a da forma; conteúdo, jamais! O ser humano que não é mensurado quanto ao poder econômico e as fórmulas das redes sociais, não interessa aos padrões médios da sociedade brasileira. E com o universo da lógica digital a comandar o mundo, observa-se que as pessoas estão numa corrida desenfreada, cujo sentido passa pela exclusão do outro; já que esse outro representa – para o sujeito neoliberal cansado de si – o contraditório; o negativo. E isolado no meu mundo, desconheço o outro – sempre estranho.
E assim vamos construindo a cada dia e de forma acentuada, o excesso de positividade; a negatividade é o incômodo dos tempos neoliberais. O centro do juízo deixou de ser a realidade e passou à emoção individual. O que importa não é a verdade, mas a sensação. Vivemos, assim, sob o domínio da autoimagem. É uma cultura narcisista — e, por isso mesmo, frágil. Quem não sabe que, quanto mais depende da aprovação externa, mais vulnerável é o sujeito? Esse narcisismo é uma fuga desesperada da realidade; é uma tentativa de trocar o combate interior por uma encenação emocional, segundo o professor Rodrigo Gurgel.
A guinada narcisista digital aliada à lógica neoliberal cega o ser humano a qualquer possibilidade de compreensão do outro; e isso cria ilhas de exclusão da empatia – visto que o digital não trabalha como elemento de mediação social; ele aproxima imagens frias, assépticas – jamais proximidades reais. No universo do igual não ocorre interação, apenas simulacros aproximativos. A realidade do igual nesse universo paralisa o contraditório – elemento de identificação relacional. A relação da vida torna-se mercantilizada, cujo lastro artificializa-se. E com a vida mecânica, lisa, sem relevo, princípios e valores éticos jamais virão de aparatos tecnológicos. A técnica é apenas uma das dimensões da vida; e viver vai além do simples ato de respirar, das curtidas e dos likes.
A vida requer da gente é coragem para enfrentar o real – diria o mestre Rosas pela boca do nosso Riobaldo. O real não é essa ilusão apresentada no dia-a-dia da vida lisa do digital. Isso são apenas imagens projetadas da nova caverna platônica que se nos apresenta para “remasterizar formas de viver”. Não se deve projetar o outro do mundo, mas apenas ver como ele é de fato. Caso contrário, estaremos desperdiçando a vida com representações sobre o próximo, sobre o mundo vazio…
A vida – como condição biológica – nos foi dada pela mãe natureza as espécies humana e animal. Michel Montaigne já nos dizia: “Somos feitos de pedaços”. E esses pedaços se juntam no grande quebra cabeças entre naturezas humana – animal – vegetal. Seria o absoluto frágil que precisa de cuidado – para a própria vida se colocar na dimensão maior. Do contrário, estaremos a perpetuar a lógica capitalista de destruição das formas de vida. Nenhuma vida é superior às demais ou completamente íntegra. E como o mal é uma parte não eliminável da condição humana – dirá o professor Rodrigo Gurgel -, é preciso nos movermos na baliza ética da própria vida. Isso vai ao encontro do que disse a juíza Vanessa Cavalieri (da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro) à BBCNews, acerca do caso do cão Orelha: “Se a gente vive numa sociedade em que cada um comete o crime que quer porque acha que esse crime especificamente não tem problema, a gente vive numa sociedade sem regras. Vivemos no Brasil a teoria pura das janelas quebradas: quer dizer, ninguém respeita a lei, então eu também não vou respeitar a lei. E tudo bem, porque esse crime aqui que estou cometendo acho que não tem nada de mais; já o crime que o outro cometeu é horrível.”
E continua a juíza: “Eu teria zero surpresa se, depois da perícia, se concluísse que isso não foi apenas a ação de cinco meninos isolados, mas parte de uma comunidade maior, com liderança, incentivo e busca por status”. Segundo ela, “a tortura de animais não é um episódio isolado, mas tem sido prática recorrente em comunidades online, transmitida em plataformas como o Discord. As pessoas estão divorciadas da realidade. Elas não têm ideia de que o que aconteceu e acontece todas as noites em muitas casas do Brasil.”
E como o Brasil não tem projeto de nação, tudo que vem de fora representa nossa suposta liberdade – caso das redes sociais. Na verdade, trata-se de uma nova servidão voluntária – parafraseando Etienne de La Boétie. E se o Brasil não investe em escolas públicas de período integral – como princípio civilizatório -, as redes sociais dominam mentes, anseios e perspectivas de crianças, adolescentes e jovens. As “big techs não dormem de toucas”! E o jeitinho brasileiro recrudesce sempre com novos contornos, destruindo o que resta do nosso tecido social. E acrescento o que diz a magistrada: “a exposição contínua de crianças e adolescentes a conteúdos extremos produz um processo de dessensibilização da violência. Na verdade, é uma forma de educar em que nada do que o filho faz de errado tem consequências e em que também não são colocados limites claros desde o início da vida, de que, olha, daqui para lá não se passa. Inclusive limites de convivência social, de respeito ao próximo.”
À guisa de conclusão, a lógica da vida moderna ditada pelo capitalismo digital – ao romper os laços com a natureza – colocou o ser humano absolutizado no centro do universo, mas esqueceu-se das teias da vida, necessárias para sustentá-lo. E se a natureza não precisa do ser humano, este, ao contrário, depende dela desde a concepção da vida. Homens e mulheres não são entes absolutos a dominar a natureza; todos guardam fragilidades, as quais para suportá-las dependem dos animais e vegetais. E para a manutenção desse absoluto frágil – condição sine qua non da vida – é necessária uma educação pública como princípio civilizatório, do cuidado com a Mãe Natureza – nossa casa comum.

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*José Gadêlha Loureiro, professor de História e Secretário Geral da ADEEP-DF (Associação de Diretores e Ex-diretores das Escolas Públicas da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal).

