Por Maria José Rocha Lima*
Há nomes que se confundem com a própria respiração de um território. Na história da Bahia — e, por extensão, na história do Brasil — poucos exerceram essa função com tanta nitidez quanto Luiz Henrique Dias Tavares, que estaria completando 100 anos neste domingo, dia 25. Professor, pesquisador rigoroso, intelectual público e mestre de gerações, ele fez da investigação histórica não apenas um ofício, mas uma ética: a ética do cuidado com a memória coletiva, a ética da palavra precisa, a ética do compromisso com a verdade dos fatos.
Luiz Henrique foi um daqueles raros intelectuais que, ao aprofundar-se no passado, iluminam o presente. Com seu método obstinado e observação aguda, renovou o modo como estudamos a formação da sociedade baiana — da escravidão aos conflitos políticos do século XIX, da vida urbana aos dilemas de uma sociedade marcada por contradições profundas. Sua obra não é apenas extensa — é seminal.
“História da Bahia”, “Da sedição de 1798 à Revolta de 1824”, “O Livro da Razão”, “Borges de Barros”, entre tantos outros títulos, tornaram-se referência obrigatória para quem deseja compreender o percurso histórico, cultural e político da Bahia e do país. Não porque ofereçam respostas prontas, mas porque ensinam a perguntar. E essa talvez tenha sido sua grande contribuição como professor: formar leitores capazes de pensar.
Tive a honra de acompanhar de perto seu trabalho e, sobretudo, sua postura intelectual. Havia nele uma combinação rara de erudição robusta e humildade elegante — virtude dos que não precisam provar nada, porque a própria obra já fala. Luiz Henrique acreditava na força do documento, na seriedade da pesquisa, no diálogo entre historiadores e, principalmente, no papel social da História como ferramenta de emancipação.
Como educador, formou intelectuais, jornalistas, professores, pesquisadores, gestores públicos, artistas — pessoas que, ao passarem por suas aulas, compreenderam que escrever sobre o passado é também um ato de responsabilidade ética diante do presente. Sua presença na Universidade Federal da Bahia foi a de um farol: firme, constante, generosa.
Era um mestre do rigor e da delicadeza. Sabia que a História se faz com datas e documentos, mas também com gestos, silêncios e tramas humanas. Talvez por isso sua obra permaneça atual: ela está ancorada na dimensão concreta da vida, sem perder de vista a espessura moral que sustenta as sociedades.
Ao recordar Luiz Henrique Dias Tavares, celebramos mais que um grande historiador. Celebramos um intérprete da Bahia, alguém que ajudou este estado — tão plural, tão vivo, tão cheio de lutas e contradições — a ler a própria alma. Sua produção científica permanece como patrimônio inestimável, e sua atuação como mestre segue inspirando novas gerações.
A obra de Luiz Henrique não é uma herança estática; é uma convocação. Convocação ao estudo sério, ao debate fundamentado, à defesa inegociável da verdade histórica. Convocação à memória e ao compromisso público. Convocação, enfim, à responsabilidade de honrar o passado para construir um país menos desigual e mais consciente de si.
Por tudo isso, lembrar de Luiz Henrique Dias Tavares é um ato de gratidão — e também de continuidade. Porque, como todo grande mestre, ele permanece. Permanece nos livros, nos arquivos, nas salas de aula, e sobretudo permanece em cada um de nós que seguimos acreditando na educação, na pesquisa e na força transformadora da História.
Maria José Rocha Lima é mestre em Educação e doutora em Psicanálise. Fundadora da Casa da Educação Anísio Teixeira. Deputada estadual no período de 1991 a 1999.
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