Por Carlos Arouck
Megaoperação desmantela esquema bilionário de sonegação Uma ação conjunta de 621 agentes de órgãos como Receita Federal, Ministério Público de São Paulo, Polícia Civil e Militar e secretarias de Fazenda revelou um dos maiores esquemas de sonegação e lavagem de dinheiro do setor de combustíveis. A Operação Poço de Lobato, deflagrada nesta quinta-feira (27), mira o Grupo Refit (hoje Grupo Fit), controlado por Ricardo Magro. O empresário é apontado como o maior devedor de ICMS de São Paulo, com R$ 7,6 bilhões apenas no estado, o segundo maior no Rio de Janeiro e um dos principais devedores da União. O prejuízo total estimado ultrapassa R$ 26 bilhões, cerca de R$ 350 milhões por mês desviados montante suficiente, segundo o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), para construir um hospital de médio porte ou vinte escolas a cada mês.
A operação cumpriu 190 mandados de busca e apreensão em seis estados e no Distrito Federal. O Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos de São Paulo bloqueou R$ 8,9 bilhões em bens, e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, mais R$ 1,2 bilhão. As equipes apreenderam R$ 2 milhões em espécie e documentos que detalham uma rede de 188 empresas interpostas usadas para fraudar importações, suprimir notas fiscais e simular operações comerciais. O inquérito resume a engrenagem: “do porto ao posto, sem pagar um centavo de imposto”. O conjunto operava como organização criminosa, com crimes contra a ordem tributária e econômica e lavagem de capitais.
A estrutura central da fraude estava na Refinaria de Manguinhos, no Rio, adquirida por Magro em 2008 e rebatizada como Refit. Investigações da Receita Federal e da Agência Nacional do Petróleo mostram que a unidade operava acima da capacidade autorizada. O limite de 17 mil barris por dia chegava a picos de 30 mil. Tanques irregulares, medições artificiais de vazão e importações de nafta e diesel da Rússia registradas como “produção própria” sustentavam a aparência de legalidade.
O modelo permitia lavagem de dinheiro de organizações criminosas, sobretudo do Primeiro Comando da Capital (PCC). O dinheiro era incorporado por fundos de investimento, holdings e offshores em Delaware e no Texas. O inquérito identifica mais de 15 offshores e 17 fundos que movimentaram R$ 72 bilhões em um ano. Fintechs e meios de pagamento segmentavam o fluxo, em estrutura semelhante à revelada pela Operação Carbono Oculto, de 2024, que conectou o PCC a distribuidoras de combustíveis e operadores do mercado financeiro.
Magro, 51, advogado e ex-defensor de Eduardo Cunha, mora em Miami desde 2018 e nega as acusações. À Folha de S.Paulo, afirmou ser alvo de perseguição e disse que suas disputas fiscais são jurídicas. O inquérito aponta outra direção: após o colapso de distribuidoras envolvidas na Carbono Oculto, o grupo reorganizou a cadeia financeira e substituiu operadores que movimentavam R$ 500 milhões por outros que giraram R$ 72 bilhões em 2024. Em setembro, a ANP interditou a Refit e reteve quatro navios com 180 milhões de litros de combustível importado de forma irregular. Magro também já foi investigado por corrupção na ANP e adulteração de bombas, em caso arquivado pelo Ministério Público paulista.
O inquérito detalha ligações entre o esquema e setores do Centrão. O principal articulador seria Jonathas Assunção, engenheiro e lobista que atuou como diretor de relações governamentais da Refit. Ele foi secretário-executivo da Casa Civil durante a gestão de Ciro Nogueira no governo Bolsonaro, chefiou o gabinete do general Walter Braga Netto e ocupou vaga no Conselho de Administração da Petrobras em 2022. Assunção administrava offshores e articulava emendas que travavam projetos voltados a sonegadores contumazes.
Ciro Nogueira, presidente do PP, aparece pela proximidade. Em maio, foi fotografado com Magro em evento da revista Veja em Nova York, patrocinado pela Refit. O inquérito atribui a aliados de Ciro pressões para limitar fiscalizações. Publicações no X destacam Nogueira, Hugo Motta (Republicanos-PB, presidente da Câmara) e Antonio Rueda (PSB-SP) no mesmo seminário.
Eduardo Cunha surge como mentor da relação entre Magro e Assunção. Condenado na Lava Jato, teria estruturado operações iniciais que ampliaram os ganhos do grupo.
O MBL não aparece de forma lateral. O Ministério Público de São Paulo incluiu um dirigente do movimento entre os operadores financeiros do esquema internacional. Cristiano Beraldo, comentarista e integrante da direção e financiador do MBL, foi alvo de mandado de busca e apreensão por supostamente administrar offshores ligadas a Ricardo Magro.
Decisão da juíza Márcia Mayumi Okoda Oshiro afirma que Beraldo mantinha empresas nos Estados Unidos registradas no mesmo endereço das estruturas usadas por Magro. Segundo o MPSP, essa coincidência demonstra vínculo operacional e possível ocultação patrimonial. Uma dessas empresas é a Cascais Bay LLC, atribuída ao grupo de Magro. Outra é a Oceana KB Real Estate, também conectada ao empresário.
O MPSP indica ainda que Beraldo atuava como CEO da J. Global Energy Inc., empresa identificada pelos investigadores como parceira internacional da Refinaria de Manguinhos. A promotoria afirma que essa relação reforça o uso de offshores para movimentação de recursos no exterior e integração com a cadeia de importação de combustíveis.
O caso Refit se aproxima do escândalo do Banco Master, liquidado pelo Banco Central na Operação Compliance Zero, em novembro de 2025. Daniel Vorcaro, proprietário do Master, foi preso por fraudes em títulos, lavagem por créditos de carbono e rombo de R$ 41 bilhões. O banco vendeu carteira fictícia ao BRB, do governo do Distrito Federal, em operação tratada como “resgate”. O Centrão aparece novamente no entorno. Vorcaro circulava com Ciro Nogueira, Arthur Lira e Hugo Motta, e pressões foram exercidas para que o Banco Central aprovasse a transação, inclusive por meio de projeto que facilitava a demissão de diretores da autarquia.
Havia conexões com o PT, por aliados de Jaques Wagner e fundos previdenciários. O Master agia no setor financeiro; a Refit, no combustível importado. Ambos drenavam recursos públicos que abasteciam campanhas. Caso delações avancem, integrantes do governo e do Congresso admitem a possibilidade de uma “Lava Jato do Centrão”.
Dados da Polícia Federal, da Controladoria-Geral da União e de relatórios recentes indicam perdas superiores a R$ 80 bilhões desde 2022. O cálculo considera apenas casos bilionários como Banco Master, Refit e fraudes no INSS investigadas nas operações Sem Desconto e Coffee Break. A recuperação de valores permanece baixa. O governo Lula não aprofunda investigações que atingem sua base.
A CGU registrou mais de 40 operações em 2025, com R$ 6 bilhões em prejuízos identificados. O Brasil caiu para a 107ª posição no Índice de Percepção da Corrupção, o pior resultado já alcançado. Os dados mostram que o sistema político segue pouco responsivo aos alertas dos órgãos de controle e quem está preso é o Bolsonaro e seu generais
Ir para o conteúdo






