Ceilândia traz nas suas origens a história de lutas – uma luta pela superação; outra luta pela autoconstrução e autoconstituição. Traz no seu âmago as origens nordestinas da força, fé e superação. Ceilândia é um exemplo vivo daquilo que o poeta espanhol Antônio Machado nos chamava atenção – caminhante não caminho; caminhos se fazem ao andar! E as andanças de Ceilândia representam um misto de suor, danças, lágrimas e sangue.
Dizem os poetas da viola – dentre os quais Francisco de Assis,- que quem canta, desencanta o que encantado está! E ocorre, na dialética da vida, as lágrimas andarem coirmanadas à alegria. As lágrimas de um futuro incerto – como todo futuro –, mas alimentado este pela esperança da fé em perspectiva, que não apenas vê à frente da caminhada, mas vê que a própria luta pela construção da pólis encontra sentido para viver. Viver o bios político de que nos falava Aristóteles, filósofo grego. E Ceilândia guarda esse espírito fundador – a construção de uma urbe sempre alimentada pela coletividade –, exemplo único na história do Brasil; e que mantêm viva nossa memória pela força dos incansáveis, companheiras e companheiros – conterrâneos velhos de guerra. – como bem documentou o cineastra Vladmir de Carvalho.
Desses milhares de seres humanos, mulheres e homens – muitas vezes desumanizados pelo poder público – impossível enumerá-los; mas, para fazer justiça – e em nome do espírito coletivo – posso rememorar que em cada quadra de Ceilândia pulsa a força da coesão – lágrimas, sangue e suor de um povo que acredita na vida.
A rigor, Ceilândia, a pólis – cidade na expressão grega – não se trata apenas do espaço físico. Ao contrário, é um eixo agregador de sentidos. Ceilândia como uma grande mãe; diversa do senso comum e com referência ao nascimento do novo. Ela é a organização de compartilhamentos de pessoas, do agir e do falar comum; e que daí resulta seu verdadeiro sentido público de coletividade com propósitos, para lembrar a filósofa alemã Hannah Arendt.
Ceilândia, Ceilândia, Ceilândia! Três vezes Ceilândia! És mulher com espírito de menina – e como criança guarda a esperança de quem se descobre a cada dia: mais lúcida, com mais energia e imensa vontade de viver. Ceilândia de muitos pretendentes; embora poucos te amem com espírito público. Fazem apenas promessas vazias – a cada quatro anos, – de um encontro “marcado” que nunca se realiza!
Ceilândia – três vezes Ceilândia! Uma súplica: diga um não definitivo àqueles que insistem em mercadejar com sua consciência pública!
José Gadêlha Loureiro, 39 anos de Ceilândia, professor de História e Secretário Geral da ADEEP-DF (Associação de Diretores e Ex-diretores das Escolas Públicas da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal). Siga-nos – Instagran:@prof.gadelhadf